"It was Maria who called you." "What I need is a coffee." Se essas frases sempre soaram meio estranhas ou redundantes para você, é porque você está lidando com as cleft sentences — as orações clivadas — um dos recursos de ênfase mais característicos do inglês e, ao mesmo tempo, um dos que menos têm equivalente estrutural direto em português. Isso faz da oração clivada um tópico que exige prática deliberada: o cérebro do falante de português simplesmente não gera essa estrutura de forma espontânea, porque nossa língua enfatiza de outras maneiras.
O que é uma oração clivada e por que ela existe
Uma oração clivada "quebra" (do inglês "to cleave", clivar/dividir) uma frase simples em duas partes, isolando o elemento que se quer enfatizar em uma oração introdutória do tipo "It is/was..." ou "What... is/was...". O objetivo é dar destaque máximo a uma parte específica da informação, algo que em português normalmente resolvemos só com entoação (a voz sobe no elemento que queremos destacar) ou com expressões como "foi X que", que, aliás, é a construção portuguesa mais próxima da cleft sentence — mas usada com muito menos frequência e naturalidade do que em inglês.
Compare:
- Frase neutra: "Maria called you yesterday."
- Com ênfase em "Maria": "It was Maria who called you yesterday."
- Em português, a tradução mais próxima seria "Foi a Maria que te ligou ontem" — construção que existe, mas que soa mais formal/enfática em português do que em inglês, onde é recurso corriqueiro tanto na fala quanto na escrita.
Essa assimetria de frequência de uso é o motivo pelo qual o aluno brasileiro tende a evitar a cleft sentence em inglês, preferindo sempre a ordem neutra SVO com ênfase apenas na entoação — o que funciona na fala, mas empobrece a escrita e soa menos natural em contextos em que um falante nativo usaria a estrutura clivada.
It-cleft: a estrutura mais comum
Estrutura:
It + be (is/was) + elemento enfatizado + who/that/which + resto da oração
| Frase original | It-cleft (enfatizando o sujeito) |
|---|---|
| John broke the window. | It was John who broke the window. |
| I need more time, not money. | It's more time that I need, not money. |
| The rain caused the accident. | It was the rain that caused the accident. |
Pontos importantes de uso:
- Quando o elemento enfatizado é uma pessoa, pode-se usar who ou that: "It was John who/that broke the window."
- Quando é uma coisa, usa-se apenas that (ou, mais raramente, which em registro formal): "It was the rain that caused the accident."
- O tempo verbal de "be" (is/was) segue o tempo da frase original — presente para situações atuais, passado para eventos passados.
Wh-cleft (ou pseudo-cleft): "What I need is..."
Estrutura:
What + oração + be + elemento enfatizado
| Frase original | Wh-cleft |
|---|---|
| I need a vacation. | What I need is a vacation. |
| She wants peace and quiet. | What she wants is peace and quiet. |
| This surprised me the most. | What surprised me the most was this. |
Essa construção também aparece na ordem invertida, para dar ainda mais impacto retórico, algo muito comum em discursos, artigos de opinião e redações argumentativas:
- "A vacation is what I need."
- "Peace and quiet is what she wants."
All-cleft: variação com "all"
Menos comum, mas útil para ênfase de exclusividade ("só", "apenas"):
All + oração + be + elemento enfatizado
- "All I want is a good night's sleep." (Tudo que eu quero é uma boa noite de sono)
- "All she did was apologize." (Tudo que ela fez foi se desculpar)
Erros mais comuns de brasileiros com cleft sentences
1. Esquecer o "it" inicial (por causa do sujeito oculto do português):
- Errado: "Was John who broke the window."
- Correto: "It was John who broke the window."
2. Usar "who" para coisas ou "which" incorretamente:
- Errado: "It was the rain who caused the accident."
- Correto: "It was the rain that caused the accident."
3. Não ajustar a concordância verbal depois de "who/that" no it-cleft (o verbo concorda com o elemento enfatizado, não com "it"):
- "It is the students who are responsible." (concorda com "students", plural, não com "it")
4. Traduzir ao pé da letra construções com "foi que" do português, gerando frases gramaticalmente estranhas:
- Tentativa literal de "Foi ontem que ele chegou": "It was yesterday that he arrived" — na verdade, essa está correta! Esse é um dos poucos casos em que a tradução literal do português funciona bem, o que reforça a importância de reconhecer quando a cleft sentence realmente é a ferramenta certa.
5. Usar cleft sentence em excesso, tentando enfatizar tudo:
Por ser uma estrutura nova e "chamativa", alguns alunos, ao aprendê-la, passam a usá-la em todo lugar, o que soa artificial mesmo em inglês. A cleft sentence deve ser reservada para momentos de real contraste ou ênfase, não para toda frase declarativa.
Quando usar cleft sentence: contextos de real utilidade
- Corrigir uma informação equivocada: "It wasn't John who broke the window — it was his brother." (útil para contrastar/corrigir)
- Responder a uma pergunta implícita sobre "quem/o quê/quando": "Who called you?" → "It was Maria who called."
- Dar peso retórico em textos argumentativos e discursos: "What really matters is honesty." (comum em redações de opinião, IELTS Writing Task 2, discursos motivacionais)
Tabela-resumo das estruturas clivadas
| Tipo | Estrutura | Uso principal |
|---|---|---|
| It-cleft | It + be + elemento + who/that + oração | Enfatizar sujeito, objeto, tempo, lugar |
| Wh-cleft | What + oração + be + elemento | Enfatizar o que é necessário, desejado, importante |
| All-cleft | All + oração + be + elemento | Enfatizar exclusividade ("só/apenas") |
Exercício mental recomendado: "quem/o quê você quer destacar?"
Uma técnica prática para incorporar as cleft sentences na produção espontânea é, antes de escrever uma frase de ênfase, perguntar-se: "qual palavra ou ideia eu mais quero destacar aqui?" e então testar se ela cabe no molde "It was/is ___ that/who " ou "What ___ is ". Fazer esse exercício conscientemente em redações e revisões de texto — mesmo que pareça mecânico no início — é o que constrói, com o tempo, a fluência natural nessa estrutura tão distante da lógica do português.