Depois de estudar as orações relativas "tradicionais" (aquelas que sempre acompanham um substantivo, como "the book that I read"), muitos alunos brasileiros se deparam com frases como "I'll do whatever you want", "What she said surprised everyone" ou "You can sit wherever you like" — orações relativas que, misteriosamente, não têm um substantivo antes delas. Essas são as chamadas free relatives (orações relativas livres ou "orações relativas sem antecedente"), uma estrutura que funciona de forma bem diferente das relativas comuns e que costuma confundir quem tenta aplicar a mesma lógica de "who/which/that" para elas.
O que são free relatives
Uma free relative clause é uma oração relativa que funciona sozinha como um substantivo (sujeito, objeto ou complemento) dentro da frase maior — ela não modifica nenhum substantivo anterior, porque ela mesma "contém" dentro de si o significado desse substantivo. É por isso que também é chamada de "nominal relative clause" (oração relativa nominal).
Compare:
- Relativa comum (com antecedente): I'll eat the food that you cooked. (a oração "that you cooked" modifica "the food")
- Free relative (sem antecedente): I'll eat what you cooked. ("what you cooked" = "a coisa que você cozinhou"; funciona como objeto direto de "eat", sem precisar de um substantivo antes)
Em português, o equivalente conceitual seria "aquilo que" ou "o que": "Vou comer o que você cozinhou" — repare que o português também "embute" o substantivo dentro do próprio pronome ("o que" = "aquilo que"), então a lógica não é totalmente estranha ao aluno brasileiro, mas a variedade de formas em inglês (whoever, whatever, wherever, whenever, however) vai além do que existe de forma equivalente em português.
Os principais pronomes/advérbios usados em free relatives
| Palavra | Sentido equivalente | Exemplo |
|---|---|---|
| what | aquilo que, o que | What you said hurt me. |
| whoever | quem quer que, qualquer um que | Whoever arrives first gets the prize. |
| whatever | qualquer coisa que, tudo que | Do whatever makes you happy. |
| wherever | onde quer que, em qualquer lugar que | You can sit wherever you want. |
| whenever | sempre que, quando quer que | Call me whenever you need help. |
| however | de qualquer forma que, por mais que | You can style it however you like. |
Função sintática das free relatives
O ponto mais importante para entender essa estrutura é que a free relative inteira ocupa uma posição gramatical na frase — sujeito, objeto ou complemento — exatamente como um substantivo ou um "the thing that..." faria:
- Como sujeito: What happened yesterday was unexpected. (= "The thing that happened yesterday...")
- Como objeto: I don't understand what you mean.
- Como complemento: This is what I've been waiting for.
O erro mais comum de brasileiros: confundir "what" com "that/which"
Este é, disparadamente, o erro número um. Como o português usa "que" tanto em orações relativas comuns ("o livro que eu li") quanto em construções que soam parecidas com free relatives ("o que eu quero"), alunos brasileiros frequentemente usam "what" no lugar de "that/which" em orações relativas comuns (com antecedente) — um erro muito característico e recorrente:
- ❌ This is the book what I told you about.
- ✅ This is the book that I told you about.
- ✅ This is what I told you about. (aqui sim "what" está correto, porque não há antecedente "book" mencionado)
A regra prática para não errar: se já existe um substantivo antes que a oração relativa está modificando, use "that/which/who" — nunca "what". "What" só aparece quando não há esse substantivo explícito, porque "what" já significa "a coisa que" embutida nele mesmo.
Outro jeito de verificar: tente substituir "what" por "the thing that" ou "aquilo que" mentalmente. Se a frase continuar fazendo sentido gramatical, "what" está correto. Se você sentir que está "faltando" um substantivo antes, o correto é "that/which".
"Whoever", "whatever" e companhia: dois sentidos possíveis
Os free relatives com "-ever" têm dois usos distintos que vale a pena diferenciar:
1. Sentido de "qualquer que seja" (universal/inclusivo):
- Whoever wins the race gets a medal. (não importa quem seja a pessoa)
- You can choose whatever you want. (não importa qual seja a coisa)
- I'll help you whenever you need. (não importa quando)
2. Sentido de concessão, equivalente a "no matter who/what/where/when/how":
- Whoever calls, tell them I'm busy. = No matter who calls...
- Whatever happens, stay calm. = No matter what happens...
- Wherever you go, I'll follow you. = No matter where you go...
- However hard you try, you won't convince him. = No matter how hard you try...
Essa segunda função é frequentemente usada em frases de efeito, provérbios e discursos motivacionais, e vale a pena reconhecer, já que aparece com frequência em música, cinema e literatura em inglês.
Diferença entre "however" como free relative e "however" como conector de discurso
Um ponto de confusão adicional para brasileiros: "however" tem dois usos completamente diferentes em inglês, e é importante não misturá-los:
- Conector de discurso (mais comum), equivalente a "porém/no entanto": I wanted to go; however, I was too tired.
- Free relative, equivalente a "por mais que/de qualquer forma que": However you look at it, this is a good deal.
O contexto sintático deixa claro qual dos dois está em jogo: quando "however" inicia uma oração seguida de sujeito + verbo dentro da mesma frase (sem ser uma frase independente separada por ponto e vírgula ou ponto final), é a estrutura de free relative.
"What" em perguntas indiretas: outra armadilha parecida
Vale mencionar de passagem que "what" em perguntas indiretas ("I don't know what she wants") tem uma função relacionada, mas não é tecnicamente uma free relative — é uma oração interrogativa indireta (embedded question). A diferença prática costuma ser sutil e, no dia a dia, não chega a atrapalhar a comunicação, mas ajuda entender que "what" tem múltiplos empregos em inglês além do simples pronome interrogativo direto ("What do you want?").
Estrutura resumida
Estrutura:
[what/whoever/whatever/wherever/whenever/however] + sujeito + verbo → funciona como substantivo (sujeito, objeto ou complemento) dentro da oração principal, sem antecedente antes.
Dicas práticas para dominar as free relatives
Uma forma eficaz de praticar é pegar frases comuns em português com "o que", "quem quer que", "onde quer que" e traduzi-las conscientemente para o inglês, prestando atenção a não inserir um substantivo antes dessas construções (evitando o erro clássico "the thing what"). Também vale treinar o teste de substituição mencionado acima ("aquilo que" / "the thing that") toda vez que surgir dúvida entre usar "what" ou "that/which" — esse pequeno hábito de verificação resolve, sozinho, a maioria dos erros nessa área.